Quase metade das cidades do Brasil perdeu área de rios e lagos no último ano; veja lista das mais afetadas
AI Summary
Nearly half of Brazilian cities experienced a reduction in surface water area in 2025, due to factors including climate change and deforestation. The decline threatens municipal water supply, agriculture, and energy production, especially in Mato Grosso and Mato Grosso do Sul.
Vista aérea mostra homem de moto no Lago Tefé, afetado pela seca do rio Solimões, no auge da seca REUTERS/Bruno Kelly Quase metade das cidades do Brasil tinha, em 2025, menos água em seus rios, lagos e áreas alagadas do que o normal. E esse retrato vem se repetindo há pelo menos quatro décadas: o país perdeu o equivalente a uma área maior que o estado de Sergipe em superfície de água desde 1985. Os dados são do MapBiomas Água, iniciativa que usa imagens de satélite e inteligência artificial para mapear, mês a mês, toda a superfície coberta por água no território brasileiro desde 1985. O levantamento mais recente foi divulgado nesta terça-feira (16). A pesquisa mostra uma redução persistente da superfície coberta por água no país e ajuda a dimensionar os efeitos de secas mais frequentes e de mudanças no regime de chuvas. Especialistas associam esse cenário a uma combinação de fatores, como mudanças climáticas, desmatamento, eventos climáticos extremos e alterações no uso do solo. A redução da superfície coberta por água pode pressionar o abastecimento das cidades, a geração de energia, a indústria, a agricultura e o consumo humano. O levantamento, porém, mede a extensão de áreas cobertas por água vista por satélite, e não diretamente o volume disponível, a qualidade da água ou a segurança hídrica de cada município. Agora no g1 Cidades com maior perda de água Em 2025, 2.511 municípios — 45% do total do país — tiveram superfície de água abaixo da própria média histórica, calculada entre 1985 e 2025. Entre os municípios com as maiores perdas estão: Corumbá (MS): -474 mil hectares (-56,7%) Cáceres (MT): -189 mil hectares (-54,8%) Poconé (MT): -103 mil hectares (-61,0%) Aquidauana (MS): -71 mil hectares (-69,7%) Barcelos (AM): -35 mil hectares (-6,3%) Rorainópolis (RR): -23 mil hectares (-22,1%) Pimenteiras do Oeste (RO): -14 mil hectares (-74,7%) Chaves (PA): -14 mil hectares (-4,7%) Barão de Melgaço (MT): -12 mil hectares (-30,1%) Santo Antônio de Leverger (MT): -11 mil hectares (-51,0%) Vila Bela da Santíssima Trindade (MT): -10 mil hectares (-54,8%) Caracaí (RR): -9 mil hectares (-5,5%) Alto Alegre dos Parecis (RO): -8 mil hectares (-79,0%) Amapá (AP): -8 mil hectares (-19,3%) Tartarugalzinho (AP): -7 mil hectares (-29,4%) As maiores perdas, tanto em volume absoluto quanto em proporção, estão concentradas em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — os dois estados cortados pelo Pantanal. Juntos, eles concentram a Região Hidrográfica do Paraguai, que sozinha perdeu mais da metade de sua superfície de água em 2025: 53,8%, ou 877 mil hectares, em relação à média histórica. Parte dessa perda tem relação com o tipo de água que está desaparecendo. O levantamento separa a água do país em dois grupos: De um lado, os corpos hídricos naturais: rios, lagos e áreas alagadas que existem sem interferência humana. De outro, os corpos hídricos antrópicos, como represas e reservatórios construídos pelo homem. Hoje, 76,7% da superfície de água mapeada no Brasil é natural, e 23,3% é artificial. Mas as duas categorias seguem direções opostas. Desde 1985, os corpos hídricos artificiais cresceram 69%, ganhando 1,7 milhão de hectares. Já os naturais encolheram 19%, perdendo 3,2 milhões de hectares — justamente a água que abastece rios, lagos e áreas alagadas sem depender de represas. Esse processo é mais visível em alguns biomas do que em outros. No Cerrado, mais da metade da superfície de água mapeada em 2025 — 55,1% — está em reservatórios de hidrelétricas, e apenas 34,4% é natural. Na Mata Atlântica, 61,5% da água mapeada vem de represas e outras estruturas construídas, a maior área absoluta de corpos hídricos artificiais do país, com 1,3 milhão de hectares. Proporcionalmente, porém, é a Caatinga que tem a maior fatia de água artificial: 78% do total. Já no Pampa, segundo menor bioma do país, a água natural ainda predomina — 88,1% —, mas a região também concentra a segunda maior área de reservatórios do Brasil, com cerca de 181 mil hectares. No Pantanal, onde está concentrada a maior parte das perdas de 2025, mais de 99% da superfície de água mapeada é natural. Ou seja, o bioma depende quase inteiramente do ciclo de chuvas e do regime dos rios, sem a "reserva" que represas artificiais poderiam oferecer. As novas imagens da seca no Brasil Por que o país perde água há 40 anos? A análise por década ajuda a entender a escala do problema. A área média coberta por água no Brasil foi diminuindo de forma consistente ao longo dos últimos 40 anos: 1985 a 1994: 19,86 milhões de hectares; 1995 a 2004: 18,71 milhões de hectares; 2005 a 2014: 18,16 milhões de hectares; 2015 a 2024: 17,28 milhões de hectares. A comparação entre a primeira e a última década mostra uma perda de 2,58 milhões de hectares de superfície de água. Isso significa que nos últimos quarenta anos uma área de água maior que todo o estado de Sergipe desapareceu completamente. Em 2025, os dados mostram que o país teve uma ligeira melhora: a superfície de água do país somou 18,2 m