'Putin não tem mais como declarar vitória na Ucrânia', diz Nobel da Paz à BBC

🇷🇺 Globo (RU) —
'Putin não tem mais como declarar vitória na Ucrânia', diz Nobel da Paz à BBC

AI Summary

Dmitry Muratov, Nobel Peace Prize laureate and former editor of Novaya Gazeta, discussed the repression of independent journalism and public dissent in Russia following the 2022 invasion of Ukraine. The Russian government has labeled many public influencers as extremists or terrorists, significantly curtailing freedom of expression and imprisoning numerous activists and journalists.

"A maioria das pessoas com influência sobre a opinião pública foi declarada como 'agente estrangeiro', 'extremista' ou 'terrorista'. São várias centenas", disse Dmitry Muratov à BBC. BBC Nos escritórios do jornal Novaya Gazeta, em Moscou, na Rússia, os corredores estão silenciosos. Há uma enorme sensação de vazio. "Não existe mais jornal", disse o ex-editor-chefe Dmitry Muratov em entrevista exclusiva à BBC. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Muratov ajudou a fundar o Novaya Gazeta há mais de 30 anos, após a queda da União Soviética. O jornal se tornou um dos principais veículos independentes da Rússia, denunciando violações dos direitos humanos e casos de corrupção envolvendo autoridades de alto escalão. Em 2021, Muratov dividiu o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços "para proteger a liberdade de expressão". O Comitê do Nobel lembrou que "seis jornalistas [do Novaya Gazeta] foram mortos, entre eles Anna Politkovskaya (1958-2006), autora de reportagens sobre a guerra na Chechênia". Agora no g1 Foi um reconhecimento ao jornalismo corajoso, mas isso não protegeu o jornal. "[Vladimir] Putin assinou um decreto que estatizou as máquinas de impressão do jornal", explicou Muratov. "O registro do jornal foi cassado." O Novaya Gazeta ainda está presente na internet, mas seu alcance é limitado: as autoridades bloquearam o site, que só pode ser acessado fora da Rússia ou por meio de VPN (sigla em inglês para uma rede privada virtual que mascara o "endereço" do usuário e criptografa sua conexão, permitindo acessar conteúdos em uma dada localização). Muratov leiloou a medalha do Prêmio Nobel para apoiar os esforços humanitários do Unicef em favor de refugiados ucranianos. EPA via BBC As dificuldades enfrentadas pelo jornal refletem a repressão mais ampla à liberdade de expressão na Rússia, que se intensificou desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022. "A maioria das pessoas com influência sobre a opinião pública foi declarada como 'agente estrangeiro', 'extremista' ou 'terrorista'. São várias centenas", disse Muratov. "Os números variam, mas, pelas estimativas mais cautelosas, desde o início da 'operação militar especial' da Rússia [na Ucrânia], pelo menos 1,5 mil pessoas foram presas por se manifestarem contra as políticas do governo. É o triplo do registrado nos anos mais duros do Comitê de Segurança do Estado [KGB, na sigla em russo], na União Soviética", acrescenta ele. Ao receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1975, o dissidente Andrei Sakharov (1921-89) citou mais de 120 presos políticos que conhecia na União Soviética. Dez anos depois, a Anistia Internacional estimou em mais de 600 o número de presos de consciência na Rússia. Os jornalistas Antonina Favorskaya, Konstantin Gabov, Sergey Karelin e Artyom Kriger foram condenados a cinco anos e meio de prisão por extremismo. Reuters Em 2022, o governo da Rússia acreditava que a "operação militar" seria rápida e bem-sucedida. Quase cinco anos depois, ela se transformou no conflito mais sangrento da Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-45). Ainda assim, confiante, o presidente Vladimir Putin continua prevendo uma vitória da Rússia. "Não haverá 'vitória'", rebateu Muratov. "Porque o que vem acontecendo há quase cinco anos, não importa como termine, já não pode ser considerado uma vitória. (...) Não pode haver vitória quando duas nações eslavas despedaçaram 1 milhão de pessoas. Ou mais de 1 milhão", diz ele. "Me parece que a situação da Ucrânia hoje é a seguinte: é possível destruí-la, mas não conquistá-la. O que quero dizer com destruí-la? Uma escalada contínua, até chegar ao uso de uma arma nuclear." Muratov realmente acredita que Putin, líder do Kremlin, usaria armas nucleares nesta guerra? "Esses analistas políticos que dizem 'Putin pensa isso' ou 'Putin tem medo daquilo'... são todos charlatães", disse Muratov. "Está no mesmo nível da astrologia. Ninguém sabe o que se passa na cabeça de Vladimir Putin. Nem eu." "Eu só posso analisar isso como jornalista. Trabalho com grandes volumes de dados. Desde o início do ano, a necessidade de recorrer a armas nucleares foi mencionada mais de 500 vezes. Quando esse tipo de coisa vem de malucos, não dou atenção. Mas já ouvi essa discussão na televisão estatal. E, no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, um evento promovido pelo Estado, um dos participantes chegou a defender o uso de armas nucleares como algo positivo, algo desejável." Ao anunciar a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o presidente Putin afirmou que a medida tinha como objetivo "garantir a segurança da Rússia". "Me diga: a segurança aumentou?", questionou Muratov. "Agora que drones ucranianos atacam depósitos da [maior varejista online russa] Wildberries; com a crise da gasolina, as interrupções na internet móvel, os presos políticos? A segurança aumentou ou não?" Apesar de pesquisas de opinião indicarem queda nos índices de aprovação de Putin dentro da Rússia, Muratov avalia que

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