Presidente eleito terá obstáculos na economia; juro alto é o principal desafio, entenda
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O próximo presidente do Brasil enfrentará uma economia desacelerada, com juros elevados, inflação acima da meta, baixa produtividade e alto endividamento das famílias, apesar do desemprego baixo e de resultados positivos na balança comercial. Economistas apontam que recuperar superávits fiscais e construir maior estabilidade política serão importantes para reduzir os juros e apoiar o crescimento.
Miriam Leitão: BC ainda tem juros altos para esfriar economia O presidente eleito em outubro deste ano para governar o país no próximo mandato, de 2027 a 2030, encontrará o país com o desemprego no menor nível da série histórica e a balança comercial siga apresentando resultados positivos. O próximo chefe do Executivo encontrará, porém, um cenário econômico adverso, marcado pela desaceleração da economia em meio a juros elevados, segundo especialistas. A baixa produtividade da economia, a instabilidade internacional, o alto endividamento das famílias e as projeções de inflação acima da meta também deve continuar sendo um obstáculo ao crescimento do país. O g1 conversou com especialistas para entender o que o próximo presidente pode fazer para melhorar o ambiente econômico do país. Para a economista Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting e professora do Insper, a evolução da economia passa por uma melhora no cenário político. A economista afirma que será necessário uma "pacificação do país" que permita a criação de uma base aliada no Congresso — o que aumentaria a capacidade de implementação da agenda econômica do futuro ocupante do Palácio do Planalto. "Acho que a primeira coisa, antes de falar diretamente da economia, é o pano de fundo que precisa ser construído na direção de pacificar o país, na direção de criar uma base aliada com participação no governo e, obviamente, como uma forma de também trazer confiança dos agentes econômicos. Esse passo é muito importante", disse. Três setores da economia Divulgação/SEBRAE, Marcos Oliveira/Agência Senado e Governo do Ceará Diminuição dos juros Os especialistas apontam que o principal obstáculo a ser enfrentado pelo futuro presidente na economia é o alto patamar da taxa de juros do país — que tem freado o ritmo de crescimento da economia, impulsionando a inadimplência e o endividamento da população. A taxa básica da economia, que chegou a 15% ao ano, está atualmente em 13,75% ao ano. Ainda assim, está entre as mais altas do mundo, em termos reais. O objetivo do Banco Central ao manter a taxa tão alta é conter as pressões inflacionárias e trazer a inflação para a meta fixada de 3%. Para possibilitar juros menores, os analistas defendem o reequilíbrio das contas públicas, ou seja, não só a retomada de saldos positivos — algo que não acontece de forma sustentada desde 2014 — mas a implementação de superávits crescentes (para conter a alta na dívida pública). Os principais presidenciáveis parecem entender o problema. Em seus planos de governo, apontam a alta taxa de juros como um dos principais obstáculos ao crescimento sustentável do país. E, embora defendam reequilíbrio das contas públicas, eles não detalham como pretendem fazer isso. Para Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, o desafio central para enfrentar a desaceleração da economia é a recuperação de superávits primários, ou seja, saldos positivos nas contas do governo. "Não poderá ser do tipo 'choque'. Será preciso um programa de recuperação para um período maior, mas com resultados colhidos já desde o início. Isto é, um programa de ajuste proposto pelo presidente e aprovado pelo Congresso para começar a vigorar o quanto antes", disse Felipe Salto. Ele defendeu discutir vinculações, indexações, subsídios tributários e financeiros, supersalários, emendas parlamentares, previdência dos militares e outras rubricas. Salto avalia, porém, que o alto nível de endividamento da população não é apenas culpa da taxa básica da economia. O economista citou os altos níveis de "spreads bancários", ou seja, de taxas finais cobradas pelos bancos bem acima da taxa Selic, e é preciso reduzir esses valores. "Não é possível que qualquer plataforma, hoje, consiga sair ofertando crédito a torto e a direito. Isso tem de mudar", opinou Salto. Flávio Ataliba, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), analisou que a atual regra para as contas públicas (o arcabouço fiscal) ainda não conseguiu dissipar as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas. Para ele, a ausência de uma sinalização clara sobre como o país estabilizará sua dívida aumenta a percepção de risco dos investidores e contribui para manter os juros em níveis elevados. Segundo Ataliba, do FGV-Ibre, uma regra fiscal considerada crível abre espaço para reduzir os juros de forma sustentável, aliviar o endividamento das famílias e criar condições para elevar a produtividade do país. "Hoje não existe uma previsibilidade crível de que teremos uma regra capaz de estabilizar a dívida. Isso gera um prêmio de risco muito grande na economia", afirmou. Para baixar os juros, Zeina Latif defendeu medidas que sinalizem o compromisso com as contas públicas, mesmo que o ajuste não garanta a estabilização da dívida brasileira nos próximos anos. Ela defendeu reformas, muitas delas constitucionais, para reduzir os gastos