Policiamento ostensivo concentra 58,6% dos R$ 103,5 bilhões das polícias; ex-presidiários representam 0,001% dos gastos estaduais, aponta estudo
AI Summary
Brazilian states spent R$103.5 billion on police in 2025, predominantly on ostensive policing (58.6%), while investments in policies for former prisoners were only 0.001% of total security expenditures. A recent study questions this resource allocation, highlighting risks of inefficiency in crime solving and reinforcing mass incarceration.
Viatura da Polícia Militar do Estado de São Paulo Divulgação/Polícia Militar Os estados brasileiros gastaram R$ 103,5 bilhões com as polícias em 2025, mas a maior parte dos recursos foi destinada ao policiamento ostensivo. Do total, R$ 60,7 bilhões (58,6%) foram destinados às Polícias Militares, responsáveis pelo policiamento ostensivo. Já as Polícias Civis, encarregadas das investigações, receberam R$ 22,2 bilhões (21,5%), enquanto as Polícias Técnico-Científicas, que atuam em áreas como perícia e produção de provas, receberam R$ 2,8 bilhões (2,7%). Na outra ponta do sistema de justiça criminal, os investimentos em políticas exclusivas para pessoas egressas do sistema prisional representaram, em média, apenas 0,001% dos gastos estaduais. O levantamento nacional analisou orçamentos das polícias, sistema prisional e políticas para egressos no ano passado em 26 unidades da federação Os dados fazem parte da nova edição do estudo “O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros”, elaborado pelo JUSTA e lançado no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento analisou os orçamentos de 26 unidades federativas em 2025. O Acre foi o único estado que não forneceu dados para o estudo. Segundo o JUSTA, a distribuição dos recursos prioriza o policiamento ostensivo em detrimento das ações de investigação, inteligência e produção de provas. Para a organização, isso pode ampliar a capacidade de prender sem necessariamente aumentar a capacidade de esclarecer crimes e desarticular organizações criminosas. “Quando o investimento em policiamento ostensivo cresce sem que a investigação e produção de provas avancem na mesma proporção, o sistema amplia sua capacidade de prender sem necessariamente fortalecer sua eficiência para esclarecer os crimes. É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em massa, marcado por fragilidades na apuração da autoria e na produção de evidências”, avalia Luciana Zaffalon, diretora-executiva do JUSTA. O JUSTA é um centro de pesquisa, design estratégico e incidência que atua no campo da economia política da Justiça, analisando a gestão e o financiamento judicial. O objetivo da organização é mostrar como a relação do sistema de Justiça com os outros Poderes e com a economia afeta a experiência democrática e a vida de milhões de pessoas. R$ 5.423 nas polícias para cada R$ 1 em egressos O estudo aponta que os recursos públicos destinados à segurança seguem um “funil de investimentos”: os valores são maiores na entrada do sistema de justiça criminal e diminuem nas etapas seguintes. Em 2025, foram: R$ 103,5 bilhões para as polícias; R$ 22,3 bilhões para o sistema prisional; R$ 19 milhões para políticas exclusivas destinadas a pessoas egressas do sistema prisional. Na proporção calculada pelo estudo, para cada R$ 5.423 destinados às polícias, foram gastos R$ 1.169 com o sistema prisional e apenas R$ 1 com políticas para egressos. Em média, os investimentos destinados exclusivamente a essa população representaram 0,001% dos gastos estaduais. A diferença aumentou em relação à edição anterior do estudo, que analisou os dados de 2023. Naquele ano, eram destinados R$ 4,8 mil às polícias para cada R$ 1 investido em políticas para egressos. Em 2025, o valor passou para R$ 5,4 mil, um crescimento de 16%. Ao todo, 19 unidades federativas, ou 72% das analisadas, não investiram em políticas exclusivas para egressos em 2025. Presídio em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza TV Verdes Mares/ Reprodução Minas Gerais e Rio gastam mais com polícias do que com outras áreas Minas Gerais passou a ocupar a primeira posição entre os estados que mais gastam proporcionalmente com as polícias. Foram destinados 10,6% do orçamento, o equivalente a R$ 12,4 bilhões em 2025. O valor representa um crescimento de 42% em relação ao ano anterior, quando o estado havia investido R$ 8,4 bilhões. O montante destinado às polícias mineiras também superou os R$ 11,2 bilhões aplicados conjuntamente em outras 18 funções públicas. Entre elas estão Administração (R$ 4,9 bilhões), Transporte (R$ 2,2 bilhões), Agricultura (R$ 1,1 bilhão) e Ciência e Tecnologia (R$ 618 milhões). O Rio de Janeiro destinou 10,3% de seu orçamento às polícias, o equivalente a R$ 11,1 bilhões. O valor ultrapassou todo o investimento estadual em Educação, de R$ 10,8 bilhões. Os gastos com as polícias também ficaram muito acima dos valores destinados a Saneamento (R$ 120 milhões), Energia (R$ 31 milhões) e Trabalho (R$ 29 milhões). Os dois estados apresentam, segundo o estudo, cenário de desequilíbrio fiscal. De acordo com a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o orçamento de 2026 prevê déficit de R$ 5,2 bilhões. No Rio de Janeiro, conforme a Alerj, a estimativa é de déficit de R$ 18,93 bilhões no mesmo ano. Em valores absolutos, São Paulo foi o estado que mais gastou com as polícias em 2025: R$ 18,4 bilhões. O valor supera os R$ 18,2 bilhões destinados conjuntamente a outras 11 funções, c