'Não conseguia acreditar que meu torturador vivia livremente nos EUA': os venezuelanos que reconheceram em novela na TV militar que os prendeu

🇺🇸 Globo (US) —
'Não conseguia acreditar que meu torturador vivia livremente nos EUA': os venezuelanos que reconheceram em novela na TV militar que os prendeu

AI Summary

Venezuelan torture victims have identified their former tormentor, ex-National Guard commander Rafael Quero Silva, living freely in Miami and working as a TV soap opera extra on Telemundo. After years of impunity, U.S. immigration authorities (ICE) arrested Quero Silva in February 2025 for overstaying his visa, bringing a measure of justice to his alleged victims.

Rafael Quero Silva foi comandante da Guarda Nacional Bolivariana em Barquisimeto, na região centro-oeste da Venezuela, e foi encarregado da repressão aos protestos contra o governo nos anos de 2013 e 2014. Gentileza jornal El Impulso María Elena Uzcátegui teve uma sucessão de sentimentos, da incredulidade à indignação, quando soube que o militar venezuelano Rafael Quero Silva, acusado de tortura por ela e por mais quatro venezuelanos, trabalhava como figurante de telenovelas emMiami, nos Estados Unidos. Nos anos de 2013 e 2014, o tenente-coronel Quero Silva foi comandante do Destacamento 47 da Guarda Nacional Bolivariana no Estado de Lara, no centro-oeste da Venezuela. Naquele cargo, ele liderou a repressão aos protestos contra o governo de Nicolás Maduro. E, segundo Uzcátegui, Quero Silva se encarregou pessoalmente de invadir sua casa e detê-la. Ela foi enviada para a prisão de segurança máxima de Uribana e se tornou a primeira mulher presa por motivos políticos a ser mantida naquele local. "Quando fiquei sabendo, perguntei: 'O que é isso?'", relembra ela, sobre a participação do tenente-coronel em telenovelas. "Como é possível que alguém que foi torturador, que mandou matar e fez sofrer tantas pessoas, viva agora livremente nos EUA, feliz da vida?" "E, agora, também é artista! Eu não conseguia acreditar que aquilo era verdade. Depois de tudo o que ele fez na Venezuela, que enorme injustiça!", declarou Uzcátegui à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. A notícia de que Quero Silva se encontrava em Miami se espalhou rapidamente em 2018, quando membros da diáspora venezuelana o reconheceram ao interpretar, entre outros, o papel de policial na telenovela Mi Familia Perfecta, da rede de TV Telemundo. Na época, Uzcátegui morava na Colômbia. A notícia chegou a ela pouco depois, quando agentes do FBI entraram em contato com ela como parte de uma investigação sobre o ex-militar venezuelano. Sete anos se passaram para que aquela indignação desse lugar à surpresa e uma certa esperança. A presença de Rafael Quero Silva nos EUA foi detectada por membros da comunidade venezuelana em Miami, que o viram interpretando um policial na novela Mi Familia Perfecta, da rede de TV Telemundo. Telemundo Perto de ser deportado No final de fevereiro de 2025, agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) detiveram Quero Silva em Miami. Ele foi considerado "estrangeiro ilegal e criminoso da Venezuela". Segundo informado pela imprensa americana, as autoridades migratórias descobriram que o ex-militar venezuelano havia entrado nos EUA em 2016 e permanecido no país além do período permitido pelo seu visto. A notícia da detenção causou forte impacto a Uzcátegui, que novamente não acreditava no que estava vendo. Mas, desta vez, de forma mais positiva. "Quando fiquei sabendo que ele havia sido preso, aí, sim, é verdade... fiquei como que em choque, porque o impensável aconteceu", relembra ela. "Eu não conseguia acreditar no que estava se passando. Até chorei. Eu tinha tantos sentimentos desencontrados que não sabia como me sentia." Após a detenção, Quero Silva foi submetido a um processo migratório concluído em novembro passado, quando um juiz determinou que ele "havia participado de violações aos direitos humanos na Venezuela" e ordenou sua saída do país. Quero Silva está detido no centro para migrantes Krome, em Miami. Ele recorreu da decisão para evitar ser deportado. Paradoxalmente, Uzcátegui não quer a deportação, para que ele possa responder à ação civil apresentada por ela, ao lado de outros quatro venezuelanos, perante a Justiça americana. A Guarda Nacional Bolivariana teve papel central na repressão dos protestos contra o governo que agitaram a Venezuela desde 2013. AFP via Getty Images Primeiro militar venezuelano acusado por suas vítimas A ação legal contra Quero Silva se baseia na Lei de Proteção às Vítimas de Tortura dos EUA (TVPA, na sigla em inglês). Ele é acusado de ter ordenado, autorizado e supervisionado a tortura de manifestantes e pessoas detidas, incluindo os cinco autores do processo. A ação foi apresentada no final de 2025, com apoio jurídico do Centro Guernica 37, uma ONG internacional dedicada à defesa dos direitos humanos e responsabilização. Uma das diretoras dessa organização, Almudena Bernabéu, explica por que se optou por uma ação civil e não penal. Nos EUA, pessoas físicas não podem apresentar ações penais, pois elas dependem exclusivamente do Departamento de Justiça. Mas, nem por isso, elas deixam de ser importantes. "Este é um processo civil que se desenvolve em um tribunal, com um juiz com experiência penal e um júri de 12 pessoas que decide sobre a culpabilidade", explica a advogada. "Ou seja, o trâmite, de fato, é equivalente ao de um processo penal, mas o resultado não é uma sentença de absolvição ou condenação, mas sim ações punitivas e um montante a pagar como compensação pelo que foi sofrido." O processo também tem valor simbólico, pelo que isso pode representar

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