Entre o passado nuclear e as terras raras: cidade do Sul de Minas vive novo ciclo mineral 40 anos depois
AI Summary
The municipality of Caldas in Minas Gerais, Brazil, will begin operation of an Australian company's rare earth mining project in 2028 near a site with radioactive mining waste. The project aims to supply 8% of the global rare earth demand, while locals express concern over environmental and agricultural impacts.
Cidade mineira que abriga rejeitos radioativos de mineração terá mina de terras raras A exploração de terras raras ao lado de um passivo nuclear deixa o município de Caldas, no Sul de Minas Gerais, dividido entre a promessa de um futuro de desenvolvimento e o temor de repetir os impactos do passado. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram Está previsto para entrar em operação no município em 2028 um projeto da empresa australiana Meteoric Resources para explorar uma área de 425 hectares. Batizado de “Projeto Caldeira”, o empreendimento deve processar anualmente 5 milhões de toneladas e gerar 15 mil toneladas anuais de carbonato de terras raras. 🔎 Terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos estratégicos fundamentais em tecnologias como carros elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos de defesa. O empreendimento deve se tornar um dos mais importantes na corrida por minerais críticos, com capacidade para abastecer 8% da demanda mundial por terras raras. Porém, está nascendo em um território sensível. De um lado, fica a Área de Proteção Ambiental (APA) Pedra Branca e, do outro, a antiga mina de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (UDC/INB). Inaugurada na década de 1980, a INB produziu 1,5 mil toneladas de concentrado de urânio que abasteceram a usina de Angra I e ajudaram a alavancar o programa nuclear brasileiro. Mina de terras raras será montada ao lado de antiga mina de urânio, em Caldas (MG) Arte/g1 A unidade está desativada desde meados da década de 1990 e em processo de descomissionamento, mas abriga 12 mil toneladas de rejeitos radioativos que vieram da extração de terras raras de areia monazítica da antiga Usina Santo Amaro (USAM), também desativada. O material está distribuído em tambores — armazenados em galpões e no subsolo — e em uma barragem. É uma herança indigesta deixada pela mineração que permanece na memória dos moradores de Caldas e alimenta a desconfiança de que novos empreendimentos possam repetir um ciclo de desenvolvimento temporário seguido de impactos permanentes. “Eu espero só que as autoridades que tenham competência para isso vejam certinho para não prejudicar famílias que vivem da agricultura e não aconteça a mesma coisa que foi com a INB, para a gente ficar só com o lixo depois”, afirma o presidente do Sindicato Rural de Caldas, Messias Sebastião Guimarães. A agricultura é a maior atividade econômica do município, que tem mais de 900 produtores rurais, a maioria de agricultura familiar. Mais de 100 deles estão estabelecidos na região próxima à mina, com plantio de uva, rosas e hortaliças, além da produção de leite. De acordo com Guimarães, os agricultores estão na expectativa para saber como será feita a exploração e quais serão suas consequências. “Ninguém é contra o desenvolvimento. Se não contaminar a água, não prejudicar a agricultura, ninguém tem nada contra, desde que seja feito dentro das normas e deixe todo mundo trabalhar, continuar sua vida”, diz. Estudos apresentados até agora pela empresa e analisados por órgãos reguladores não apontaram risco relevante de radiação relacionado ao empreendimento. A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) dispensou, em caráter preliminar, exigências adicionais de controle radiológico para a instalação da mina (leia mais abaixo). Segundo a Meteoric, o projeto foi respaldado por inúmeros estudos que embasaram medidas para minimizar os impactos ambientais. A mineração será feita em superfície, com retirada de argila rasa, sem uso de explosivos e sem barragens de rejeitos. Após a extração, as cavas abertas serão preenchidas com a própria argila tratada. (Leia mais abaixo). Área rural de Caldas (MG) irá receber uma mina de exploração de terras raras Fabiana Assis/g1 O medo de ter a tranquilidade ameaçada Os moradores de Caldas e do distrito de Pocinhos do Rio Verde têm receio dos possíveis impactos cotidianos, como o aumento do tráfego de caminhões, que podem causar riscos à segurança, contaminação das culturas agrícolas com poeira e emissão de partículas. A funcionária pública aposentada Vanda Maria de Carvalho Reis teme que o sonho de vida que começou quando, há 25 anos, comprou propriedade rural em Caldas, esteja ameaçado. A área de 7 hectares, que era sem água, luz ou construções, aos poucos foi se transformando com o cuidado da família. Hoje, além da casa principal, há um espaço alugado para hóspedes, um restaurante e uma mata nativa que quase triplicou de tamanho nas últimas décadas. Vanda Maria de Carvalho Reis teme que área rural que tem há 25 anos e montou um restaurante sofra impactos da mineração de terras raras Fabiana Assis/g1 Há 16 anos, ela se mudou definitivamente para o lugar que chama de “paraíso”, esperando sossego, respirando ar puro e cercada pela natureza após a vida corrida em Campinas (SP). Mas, nos últimos dois anos, a possibilidade da instalação da mina a apenas dois quilômetros da propriedade passou a ser uma apreensão. Quando soube dos projetos de mineraçã