Diante de crise e 'chantagem' dos EUA, ONU corta 10 mil empregos, vê riscos para missões e pode deixar refugiados no Brasil sem assistência
AI Summary
A United Nations funding crisis has led to more than 10,000 job cuts and threatens humanitarian programs, including refugee assistance in Brazil. Cuts have affected 21 of 41 UN agencies, while the organization faces pressure over unpaid US contributions.
ONU vive crise, corta 10 mil empregos e vê riscos em ações humanitárias Delmany Rodrigues tinha apenas 8 anos quando chegou ao Rio de Janeiro. Ele e o irmão foram trazidos pela mãe, Dona Amélia, que decidiu deixar Angola para protegê-los do agravamento da guerra civil que aterrorizava o país. O ano era 1994. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp "A minha mãe tinha medo da rusga. Eram carros militares com caçamba que levavam os meninos maiores. Minha mãe sabia que mais cedo ou mais tarde a rusga podia levar seus filhos para a guerra. As mães escondiam os filhos homens", relembra. Mas a decisão de deixar Angola trouxe outros desafios para a família. Apesar de pertencerem à classe média no país de origem, os três enfrentaram dificuldades financeiras no Brasil. Ao decidir permanecer no Rio com os filhos, Amélia perdeu o emprego que tinha em Angola e precisou solicitar refúgio. Foi no atendimento humanitário da Cáritas e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) que a família encontrou apoio para recomeçar. Durante a infância e a adolescência, Delmany e o irmão receberam cestas básicas, material escolar e auxílio para pagar o aluguel. Também tiveram acesso a medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a cursos de qualificação profissional. Anos depois, bolsas de estudo abriram caminho para o ensino superior. Delmany se formou primeiro em Educação Física, por meio de políticas públicas voltadas a estudantes de baixa renda. Depois, cursou Fisioterapia com uma bolsa viabilizada por uma parceria com o ACNUR. "Foi um divisor de águas na nossa vida. Hoje as pessoas me chamam de doutor, tenho clínica e virei empresário. Mas eu não seria nada disso se não tivesse recebido esse auxílio lá no início. O suporte nos deu comida, remédio e acesso ao estudo. Formou cidadãos." Delmany quando criança (em pé) e hoje em dia, aos 40 anos Arquivo pessoal Mas crianças que, como Delmany, hoje buscam uma vida melhor em outro país com as famílias podem não ter a mesma oportunidade. A Organização das Nações Unidas (ONU) enfrenta uma grave crise financeira e vem promovendo cortes de pessoal e mudanças na estrutura para tentar contornar a situação. Em um ano, as Nações Unidas cortaram mais de 10 mil postos de trabalho e viram o orçamento geral sofrer uma redução importante. Isso colocou programas e ações humanitárias em risco. Enquanto isso, a entidade sofre pressões dos Estados Unidos, que devem bilhões de reais em contribuições obrigatórias. Os cortes de pessoal atingiram 21 das 41 agências e organismos da ONU em 2025. Entre os mais afetados estão o ACNUR, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os dados estão em um relatório do Conselho de Chefes Executivos da ONU, que reúne informações sobre o quadro de funcionários das diferentes entidades da organização. Em 2024, o sistema das Nações Unidas tinha 130.948 postos de trabalho. No ano seguinte, o número caiu para 120.176, uma redução de 8%. Para 2026, a organização aprovou a extinção de outros 2,9 mil cargos em diferentes setores. A ONU também instituiu um programa de demissão voluntária e de aposentadorias antecipadas. No fim do ano passado, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a situação financeira da organização era a mais frágil em anos. De forma geral, as agências que integram todo o sistema das Nações Unidas vêm sofrendo com a queda de receita. Em 2025, por exemplo, a manutenção de toda a estrutura da ONU custou US$ 64,3 bilhões (R$ 322 bilhões), uma queda de 2% em relação a 2024. Dois terços desse valor foram destinados à assistência humanitária e a ações de desenvolvimento nos países. O cenário para 2026 é ainda mais desafiador, principalmente para o setor humanitário. Stéphane Dujarric, porta-voz de Guterres, disse ao g1 que os Estados Unidos reduziram drasticamente as contribuições voluntárias para a assistência humanitária. O país era responsável por cerca de 45% do orçamento da área. Além disso, países europeus também fizeram cortes. "O resultado foi dramático. As pessoas nos campos de refugiados passaram a receber menos alimentos e vacinas e tiveram menos acesso à educação. Programas inteiros foram encerrados. Com isso, as pessoas que dependiam dessa ajuda não receberam o que precisavam", afirmou. Nesta reportagem, você ainda vai ver: A situação grave pela qual passa o ACNUR. Por que e como os EUA estão bloqueando o envio de recursos às Nações Unidas e porque isso pode ser considerado uma "chantagem", segundo o especialista Uriã Fancelli. Quanto cada país precisa pagar para a ONU por ano. Como está a situação das Nações Unidas no Brasil. A crise da ONU em números Lara Bernardino/Arte g1 Alerta no ACNUR O caso do ACNUR é um dos mais graves. No ano passado, o Comissariado para Refugiados havia pedido US$ 10,6 bilhões para cumprir todas as funções e dar suporte a quase 130 milhões de pessoas em todo o mundo. No entanto, a agência arrecadou m