Da oração à rede: tradição do pescado conecta rio, mar e tanques e movimenta a economia no ES
AI Summary
A comunidade Guarani da Aldeia Piraquê-Açu, em Aracruz, mantém tradições de pesca e criação de peixes em tanques, enquanto relata a deterioração do rio após a contaminação associada ao desastre de Mariana. O pescado continua essencial para a alimentação, cultura e economia local, mas a insegurança sobre a qualidade da água levou os moradores a comprar peixe de outras áreas.
Da oração à rede: tradição do pescado conecta rio, mar e tanques e movimenta a economia Antes de falar de peixe, o cacique Kara'í Perú e a mãe, Keretxu Emdey, de 86 anos, que é pajé da Aldeia Piraquê-Açu, em Aracruz, no Espírito Santo, abrem os braços e fazem orações no rio Rio Piraquê-Açu, que margeia a aldeia onde vivem. O canto, em guarani, pede proteção para os rios, para o mar e para os peixes. É também um pedido pela comunidade e por quem depende das águas para viver. Não é uma oração qualquer. É uma bênção feita por mãe e filho para aquilo que, para os indígenas, representa muito mais do que uma paisagem. O rio , como explica Perú, é parte da vida da comunidade. É onde as crianças aprendem a nadar, onde os meninos desenvolvem a pescar e de onde, durante muito tempo, veio parte do alimento que sustenta as famílias. “O rio, para nós, é uma vida. É de onde a gente 'tira peixe, tira outras coisa' do rio pra poder alimentar nossa família. Deus criou o rio e a gente tem que cuidar dele”, disse o cacique. Ele ainda se lembra de um tempo em que era comum pescar tainha, robalo, pescadinha, vermelho e carapeba naquelas águas. Também se recorda dos peixes pulando e das crianças dentro da água. Hoje, ele diz, essa relação mudou. 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp "Eu mesmo tenho dez anos que não pesco nesse rio. Mais de dez anos! A gente não come peixe desse rio mais. Eu tenho que comprar porque não tem como", relatou o indígena. Ele relaciona as mudanças no rio Piraquê-Açu ao desastre de Mariana, em 2015. A associação feita pelo cacique faz parte da memória da comunidade, mas essa relação de causa e efeito ainda precisa de estudos ambientais mais específicos para ser comprovada. (Esperando respostas) Mas, o que Perú consegue afirmar a partir da própria experiência e vivência é que o rio já não é como antes. "O rio tá morto", decretou o cacique. Indígena faz reza para abençoar o Rio Piraquâ- Açu que fica às margens da aldeia onde vive em Aracruz Ricardo Medeiros/Rede Gazeta Depois das transformações sofridas pelo rio, a comunidade passou a criar peixes em tanques. Foi a alternativa encontrada pelos indígenas após toneladas de rejeitos de minério terem contaminado leitos entre Minas Gerais e Espírito Santo. Porém, segundo o cacique, como ainda há dúvidas sobre a qualidade da água e as condições do lençol freático da região, a opção mais segura para eles é comprar peixes com o "homem branco", ou seja, fora da aldeia, pescados a quilômetros de distância dali. A percepção do cacique Perú sobre a realidade dos indígenas de Aracruz evidencia a importância do pescado para a cultura e tradição de um povo. Ao mesmo tempo, a atividade representa sustento de famílias inteiras, gerando renda, e reforça seu impacto para a economia local. Entre o rio, o mar e o tanque, o pescado movimenta uma cadeia inteira no Espírito Santo, entre pescadores, agricultores, pesquisadores, comerciantes, peixarias, restaurantes, indústrias de beneficiamento, cooperativas e consumidores. LEIA TAMBÉM: MEIO AMBIENTE: Economia azul transforma conservação em oportunidades para pequenos negócios no ES AS AVES INVISÍVEIS DA 3ª PONTE: um berçário de concreto sob uma das maiores infraestruturas de transporte do Brasil CONHEÇA O CICLO: Por onde nadam as baleias-jubarte quando não estão no Brasil? Uma cultura que precisa continuar viva Quem tenta impedir que parte desse conhecimento adquirido com a pesca se perca é Rafael Viola, do Sindicato dos Pescadores do Estado do Espírito Santo (Sindipesca-ES). Ao falar da atividade, ele não cita apenas barcos, espécies de peixes ou faturamento, e ele gosta de falar de pessoas. "O pescador conhece a lua, o vento, o comportamento dos animais, os lugares onde eles aparecem e o momento certo de sair para o mar. É um saber construído ao longo de gerações. A pesca é uma cultura que está viva na mente do pescador. Por isso, quando ele morre, acaba”, disse Viola. Pescado com rede em praia do Espírito Santo Ricardo Medeiros/Rede Gazeta O problema, segundo Viola, é que o setor é formado por muitos pequenos atores espalhados pelo estado: pescadores, armadores, peixarias, distribuidores, fábricas de gelo, comerciantes e outros profissionais fazem parte de uma mesma cadeia, mas nem sempre conectados. O sindicato tenta justamente aproximar essas pontas. A entidade reúne empresas, armadores, distribuidores, importadores, fábricas de gelo e lojas ligadas ao setor e procura construir pontes também com colônias, associações e federações de pescadores. "A ideia é organizar uma cadeia que muitas vezes trabalha de forma fragmentada e fortalecer quem está na ponta", defendeu. Viola contou que um dos exemplos é o projeto Pesca Mais ES, desenvolvido em parceria com entidades do setor e órgãos públicos. A equipe percorre comunidades pesqueiras, ouve problemas e busca identificar soluções que possam ser construídas coletivamente. Outra frente é a Semana do Pescado. Segundo o Sindipesca, a mobilização, que acontece