Consumo sem freio: aplicativos e parcelamentos alimentam ciclo de endividamento
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O aumento do endividamento no Brasil está relacionado às compras por impulso, especialmente via aplicativos de crédito. A crescente utilização do cartão de crédito e a compulsão por compras atingem milhões de brasileiros, criando um ciclo de dívidas que impacta financeiramente muitas famílias.
Mãos mulher telefone celular smartphone em mãos fazendo compras Freepik A crise do endividamento no Brasil levanta a questão sobre o papel das compras por impulso no comércio online, muitas vezes associadas a parcelamentos no cartão de crédito, o meio de pagamento que é a principal fonte de débitos no país. Os compradores compulsivos costumam ser influenciados por "gatilhos" que despertam neles a urgência em comprar, que é ainda facilitada pelo crédito oferecido dentro dos próprios aplicativos de compras. 🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a compulsão por compras atinja 8% dos consumidores em todo o mundo. Atualmente, 80% das compras virtuais no Brasil são feitas pelo celular, num mercado de R$ 258 bilhões por ano. Na televisão, marcas oferecem descontos constantes, enquanto lives com cupons se tornaram comuns usando influenciadores que estimulam a compra impulsiva. Vídeos em alta no g1 "Antigamente, nos espaços em que eu frequentava, o problema das compras compulsivas era só meu. Hoje, já vejo como algo geral", conta Camila Nunes, que alerta sobre o tema em suas redes sociais. Ela mesma sofre com a chamada oniomania, termo utilizado para descrever a compulsão por comprar. "Tinha um bom salário, o que acabou gerando crédito. Ultrapassava o limite do cartão, mas ele não parava de passar. Eu tinha também os cartões de todas as lojas de varejo e conseguia parcelar a fatura", relembra. Foi assim que Nunes chegou a contrair 21 empréstimos, o que, com os juros, gerou uma dívida de R$ 240 mil. Sempre existem juros embutidos "As parcelas dão a sensação de que o produto é mais barato porque o foco sai do valor total e vai para o valor mensal. Isso facilita a compra, mas pode levar ao acúmulo de dívidas, principalmente quando a pessoa não percebe o impacto dos juros ao longo do tempo", explica a educadora financeira e professora da FGV-IDE Ana Paula Hornos. "Sempre existem juros embutidos, aparentes ou não", pontua. O uso do cartão de crédito rotativo, a linha de crédito mais cara do mercado financeiro, somou R$ 109,65 bilhões no primeiro trimestre deste ano. É um aumento de 9,7% na comparação com o mesmo período do ano passado. Em março, a taxa de juros do rotativo do cartão de crédito somou 428,3% ao ano. Cartões de crédito (84,9%), crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%) representam os principais tipos de dívidas dos brasileiros, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). De acordo com a pesquisa, 80,4% das famílias se encontravam endividadas em março. Desenrola: confira as regras do novo programa de renegociação de dívidas Busca por tratamento em alta A psicóloga e especialista em transtornos do impulso Tatiana Filomensky, que realiza atendimentos na área, aponta que "nunca houve tantas pessoas buscando ambulatório" para lidar com a questão. Segundo ela, pacientes podem aguardar anos para conseguir uma consulta. "Tive relações muito desgastadas por dívidas. Via a vida dos outros passando e a minha parada enquanto estava endividada. É um vício silencioso e solitário", conta Nunes. O fato de ser menos conhecida que outras compulsões, como álcool, drogas e apostas, faz com que a busca por ajuda seja limitada, avalia. "Recebo muitas mensagens, em um nível que não consigo acompanhar", conta. "As pessoas se identificam com meu conteúdo e veem que há tratamento", pontua. Além dos tratamentos clínicos para lidar com a compulsão, no Brasil há hoje o grupo Devedores Anônimos. As reuniões ocorrem nos moldes de outros grupos, como os mais famosos para o álcool e os narcóticos. "Sites prejudicam muito os compulsivos" Na visão de Nunes, o cenário atual online prejudica muito os compulsivos. Ela conta que seu cérebro só a deixava em paz depois de comprar, e que muitos dos itens adquiridos serviam para lidar com a ansiedade. A influenciadora diz que o tema é banalizado por varejistas, que divulgam conteúdos sugerindo que comprar é uma terapia. "O meme 'me mimei', ou alguém com diversas sacolas e a descrição 'eu na vida'... São sempre comentários brincando", afirma. "É normalizado, até que a pessoa acaba indo para o buraco. Vi muitos seguindo o mesmo caminho que eu", comenta. "Promoções, notificações e recomendações constantes aumentam a vontade de consumir o tempo todo, diminuindo o tempo de pensar antes de comprar. Quanto menor o tempo de análise, maior a chance de a decisão sair do controle e ir para a impulsividade", pontua Hornos. "O ambiente online facilita muito a compra por impulso porque tudo é rápido e acessível. Com poucos cliques, a pessoa sai do desejo para a compra", explica. "Ocorreu uma inversão no processo de consumo. Hoje não se consome tanto pela necessidade ou desejo, e sim pelos descontos", pontua Filomensky. Entre as estratégias dos varejistas, ela aponta que "há estímulo contínuo por descontos, de forma a sugerir uma corrida contra o tempo". Um exemplo são campanhas que s