A água-viva imortal que pode inspirar tratamentos para doenças ligadas ao envelhecimento
AI Summary
Pesquisadores estudam como a água-viva Turritopsis dohrnii consegue reverter seu ciclo de vida e voltar a um estágio juvenil quando submetida a estresse. Eles esperam que a compreensão desses mecanismos possa, no futuro, contribuir para terapias regenerativas e tratamentos de doenças ligadas ao envelhecimento, embora aplicações em humanos ainda estejam distantes.
A água-viva Turritopsis dohrnii Getty Images A minúscula e translúcida água-viva Turritopsis dohrnii é surpreendentemente difícil de matar. A bióloga marinha Maria Miglietta, da Universidade A&M do Texas em Galveston, nos Estados Unidos, cortou, ferveu, deixou passar fome, sobrecarregou seus tanques com sal e as jogou em água doce. Mas as sofisticadas criaturas parecem desafiar a morte permanentemente. Quando estão sob pressão, elas interrompem seu caminho e caem até o fundo do tanque. Em seguida, acontece algo impressionante: os animais se transformam em bolas de células, sem nenhuma semelhança com o formato de guarda-chuva com tentáculos da água-viva adulta, conhecida como medusa. Em questão de um a três dias, surge dessa bola de células uma estrutura chamada pólipo, um estágio de vida inicial da água-viva. Ele cresce para se transformar em uma colônia, que, eventualmente, irá gerar novas medusas. "De uma água-viva que não morre, você consegue esta colônia que pode formar centenas de outras", explica Miglietta. E cada uma dessas novas águas-vivas, em princípio, pode rejuvenescer da mesma forma, exibindo uma capacidade aparentemente infinita de retomar sua juventude. Miglietta e outros cientistas estudam os processos moleculares e genéticos que possibilitam que a Turritopsis dohrnii desafie a morte. Mas, ao desvendar estes segredos, os cientistas esperam, um dia, verificar se elas podem ativar processos similares em seres humanos. O objetivo não é transformar idosos em bebês, como no filme O Curioso Caso de Benjamin Button (2008). Esta ideia permanece apenas no campo da ficção científica. Os cientistas pretendem transformar células e tecidos em seus estados mais jovens, para curar feridas e tratar de doenças relativas ao envelhecimento. "O santo graal deste tipo de desenvolvimento, eu acho, seria a biologia regenerativa: tentar reverter a degeneração ou degradação relativa ao envelhecimento", explica o oncologista pediatra Michael Koldobskiy, físico e cientista da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. "Estamos muito longe de aproveitar isso para benefício humano, mas acredito que conhecer os organismos que evoluíram estes processos milhões de anos atrás possivelmente poderá valer a pena", segundo ele. Imagem do século 19 ilustra a T. dohrnii, antes da descoberta da natureza extraordinária do seu ciclo de vida Alamy Os talentos regenerativos da Turritopsis dohrnii foram relatados pela primeira vez em 1992, por um cientista italiano que mantinha os animais em laboratório e se esqueceu de alimentá-los por um fim de semana. Ele esperava encontrá-las mortas quando retornasse. Mas, "em vez disso, ele encontrou novos pólipos no recipiente", segundo Miglietta. Pouco tempo depois, o biólogo Stefano Piraino, da Universidade de Salento, na Itália, começou a se interessar em descobrir o que possibilitou aquela façanha de rejuvenescimento. À medida que os embriões se desenvolvem, as chamadas células-tronco se multiplicam e se transformam nas células nervosas, musculares e diversos outros tipos celulares que compõem o corpo dos animais. Normalmente, elas param naquele tipo de célula específica, até que envelhecem e morrem. Mas Piraino descobriu que, durante o rejuvenescimento da água-viva imortal, certos tecidos da medusa sofrem um processo de "transdiferenciação", em que elas retornam para um estado de célula-tronco e se especializam em seguida em outros tipos celulares. "As células adultas se tornam 'não diferenciadas' e se transformam em outra coisa que seja necessária para formar o pólipo", explica Miglietta. Ela trabalhou no laboratório de Piraino. A capacidade da Turritopsis dohrnii de rejuvenescer valeu seu apelido de "água-viva imortal". E, até onde sabem os cientistas, ela é um caso único no reino animal. Alguns lagartos, vermes e anfíbios podem fazer crescer novamente partes do corpo perdidas ou danificadas, mas nenhum deles chega perto de transformar corpos adultos de volta em bebês. A Turritopsis dohrnii é uma notável demonstração de que o envelhecimento e a mortalidade nem sempre são biologicamente inevitáveis, embora os cientistas não possam descartar que ela não morra naturalmente algum dia. Indicações genéticas Atualmente, Miglietta e outros pesquisadores trabalham para dissecar os processos genéticos que permitem que as células retornem no tempo. O sonho final, segundo Koldobskiy, seria identificar a "chave" molecular que controla este processo. Se a mesma chave de controle também existir em seres humanos, talvez seja possível transformar células humanas em estados mais jovens. E, se isso for possível, poderemos acelerar a cura de feridas ou tecidos lesionados após AVCs ou ataques cardíacos, ou talvez até reverter os danos ocorridos quando da perda de visão devido à idade ou a neurodegeneração causada por Alzheimer. "Não iremos diminuir até nos tornarmos embriões e recomeçar", afirma ele. "Mas, em nível de órgãos e tecidos, acho que esta é uma possibilidade real." A pesquisa é nova, mas já com